O Federal Reserve não aumentou as taxas, mas o rendimento dos títulos do Tesouro a 30 anos disparou para 5,27% — quem está "mexendo" por trás de Wash?
O Federal Reserve anunciou em 29 de julho: taxa inalterada, entre 3,50% e 3,75%, mantendo-se estável pelo sétimo mês consecutivo.
Após o anúncio, o rendimento dos títulos do Tesouro a 30 anos subiu 14 pontos base num único dia, atingindo 5,23%, o nível mais alto desde 2007. Na sexta-feira, subiu mais 6 pontos base, para 5,27%.
O Federal Reserve não aumentou as taxas, mas o mercado de dívida aumentou a sua própria taxa.
Não há uma única razão. Cinco pressões simultâneas empurraram a taxa de longo prazo para o teto dos últimos 19 anos.
🧵 Primeira pressão: inflação — preço do petróleo sobe 20% num mês, procura interna atinge máximo de dois anos
O PCE de junho registou uma variação mensal negativa pela primeira vez desde 2020. Os dados de inflação estão a arrefecer, mas o mercado de dívida não acredita.
Porquê?
O preço do petróleo subiu cerca de 20% num mês. A procura interna no segundo trimestre atingiu o máximo de dois anos — excluindo exportações líquidas, inventários e despesas governamentais, as vendas finais privadas domésticas cresceram 3,9%, mais do que o dobro do primeiro trimestre. O consumo representa dois terços da economia dos EUA, saltando diretamente de 0,5% para 3,2%.
Um dado arrefece, três aquecem. O mercado de dívida escolheu acreditar na direção do preço do petróleo e da procura interna.
O mercado já está a precificar um aumento das taxas em setembro. Swaps de taxa indicam que a probabilidade de aumento em setembro permanece em cerca de 60% após o anúncio da decisão.
🧵 Segunda pressão: finanças — dívida de 39,5 triliões de dólares, despesa de juros de 1,04 triliões
A dívida federal dos EUA aproxima-se dos 39,5 triliões de dólares.
O défice fiscal para o ano fiscal de 2026 está previsto em 1,9 triliões de dólares, 5,8% do PIB. Para cobrir o défice, o Tesouro continua a emitir dívida de longo prazo — o montante líquido de empréstimos no segundo trimestre foi ajustado para 189 mil milhões de dólares.
A despesa líquida de juros está estimada em cerca de 1,04 triliões de dólares.
Mais empréstimos e juros mais caros. A oferta contínua de dívida de longo prazo no mercado faz com que os rendimentos subam.
🧵 Terceira pressão: Federal Reserve — 9 contra 3, maior divergência em dez anos
Na reunião de junho, a decisão foi unânime. Em julho, foi 9 a favor e 3 contra.
Três presidentes de bancos regionais defendem um aumento de 25 pontos base. É a primeira vez desde 2016 que o Federal Reserve tem três votos dissidentes alinhados.
Wash disse "isto é apenas o começo da história, não o fim". O mercado ouviu: até os próprios membros do Federal Reserve acham as taxas demasiado baixas.
O Federal Reserve não age, o mercado de dívida age por ele. Wash admite que nos últimos 42 dias o mercado já fez muito trabalho.
🧵 Quarta pressão: oferta e procura — compradores a fugir, vendedores a acumular
O Japão é o maior detentor estrangeiro de dívida dos EUA. Para defender o iene, o Japão está a vender títulos do Tesouro para angariar dólares.
O rendimento dos títulos japoneses a 10 anos está em máximos de vários anos, e seguradoras de vida e fundos de pensões já não consideram razoável manter dívida americana de baixo rendimento.
Os maiores compradores estão a vender, o Tesouro está a emitir com força. Oferta maior que procura, preços caem, rendimentos sobem — é a economia básica.
🧵 Quinta pressão: AI — 489 mil milhões de dólares em obrigações, a sugar liquidez do mercado
Goldman Sachs estima que até meados de 2026, a emissão de obrigações corporativas relacionadas com AI atingiu cerca de 489 mil milhões de dólares.
O plano de despesas de capital da Alphabet é de 205 mil milhões de dólares, e os gigantes tecnológicos planeiam mais de 600 mil milhões de dólares em despesas de capital — de onde vem o dinheiro? Emitindo dívida.
O rendimento das obrigações dos centros de dados da BlackRock atinge 7,534%, com um prémio de cerca de 287,5 pontos base sobre os títulos do Tesouro a 10 anos. A média dos rendimentos da cesta de obrigações lixo relacionadas com AI é de 7,45%.
AI está a impulsionar o crescimento económico, mas também a competir por dinheiro com o governo dos EUA. Quanto maior a procura de capital, mais caro fica o custo do dinheiro.
💡 Destes cinco fatores, pelo menos quatro são de médio prazo, não flutuações de curto prazo.
O preço do petróleo vai cair? O Médio Oriente ainda não está calmo.
O défice fiscal vai diminuir? A dívida de 39,5 triliões está lá.
A divergência no Federal Reserve vai resolver-se? Três votos contra não são simbólicos.
O investimento em AI vai parar? Os planos de despesas dos gigantes vão até ao próximo ano.
5,27% dificilmente é um "pico único". É mais provável o início de uma nova normalidade.
🔗 O que isto significa para o mercado cripto?
O ambiente de liquidez está a mudar de "expectativa de afrouxamento" para "realidade de aperto".
O rendimento dos títulos do Tesouro a 30 anos acima de 5% significa que pode obter um retorno anualizado superior a 5% sem assumir qualquer risco. O Bitcoin ronda os 62.500 dólares, o ETF de Bitcoin à vista registou uma saída líquida de cerca de 265 milhões de dólares na sexta-feira. O volume à vista atingiu o nível mais baixo desde 2019.
O capital institucional está a sair do mercado cripto, a migrar para rendimentos sem risco acima de 5%. Isto não é pânico, é uma escolha racional.
O tema principal para o segundo semestre é procurar oportunidades estruturais contra o vento.
Em 2020, quando o rendimento dos títulos do Tesouro a 30 anos era apenas 0,7%, o Bitcoin subiu de 10.000 para 60.000.
Agora, com 5,27%, espera que o Bitcoin chegue a 100.000?
Não é impossível, mas o caminho será muito mais difícil do que pensa.
O Federal Reserve não aumentou as taxas, mas o mercado aumentou por ele.
A inflação está a arrefecer, mas o preço do petróleo e a procura interna não deixam.
AI está a criar riqueza, mas também a sugar a sua liquidez.
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